Débora Terra. “A China poderá influenciar e aprofundar novas práticas e normas do sistema político económico internacional”

Débora Terra. “A China poderá influenciar e aprofundar novas práticas e normas do sistema político económico internacional”

Licenciada em Relações Internacionais pelo Centro Universitário de Belo Horizonte, no Brasil, e com Mestrado em Geografia Humana, na Universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda, Débora Terra está agora em Portugal a completar a sua formação académica, mais concretamente no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Com uma investigação que passa por relacionar Brasil, EUA e a China, encontra-se neste momento a realizar o Doutoramento em Política Comparada, com ênfase em Relações Internacionais.

“Perceções externas refletem a política externa de um país e a qualidade de sua inserção no cenário internacional”, afirma a académica, acrescentando que o seu interesse é sobre o Brasil, partindo das perceções externas dos EUA e da China. Segundo a própria, o facto de estar inserida no Power and Region in a Multipolar Order (PRIMO), programa da Comissão Europeia que visa investigar a ascensão dos países emergentes (BRICS) e suas consequências no cenário político internacional, foi algo essencial para a sua pesquisa. Começando pelo tema da sua tese de doutoramento e passando pelo papel que Portugal pode ter na sua relação com a China e a Lusofonia, Débora Terra esteve à conversa com o Portal Martim Moniz e esclareceu-nos acerca destas sinergias a nível internacional entre os vários envolvidos.

 

Pelo que reparei, o tema da pesquisa de doutoramento passa por relacionar o Brasil, os EUA e a China. Pode-nos explicar isto um pouco mais detalhadamente?

Quanto desenvolvi o projeto de investigação, em 2014, o Brasil e sua relação com a China, apesar de relevante, não se concentrava em questões políticas, sendo as produções neste campo dominantes sobre o comércio internacional. E foi a partir disso, que encontrei espaço para compreender melhor a relação entre estes dois países. Entretanto, mesmo ambos sendo reconhecidos como grandes emergentes, China a Este e Brasil a Oeste, unilateralmente não conseguiriam ter influência política necessária no cenário internacional. Porém conseguiriam juntos e beneficiando de relações trilaterais como com os EUA. Os EUA têm importância nas relações exteriores de ambos países. Desta forma, a análise de China-Brasil recebe mais corpo ao ser confrontada com um terceiro país, no caso os EUA.   

E onde surgiu o interesse por estas temáticas?

A principal ideia surgiu a partir do meu interesse em perceções e o estudo das relações internacionais. Alguns especialistas procuram encaixar o Brasil em rótulos, como potência regional, país emergente e parceiro global. Desta forma, imagina-se prever as opções e ações do país. O problema destes rótulos é que as condições são diferentes, no tempo, espaço e a partir das interações com demais países e instituições. Portanto, como o Brasil representa ou é representado é distinto em diferentes plataformas. Perceções podem justamente refletir estes tipos de mudanças, assim como permite compreender as expectativas que recaem sobre o país. Desta forma, perceções externas refletem a política externa de um país e a qualidade de sua inserção no cenário internacional. Neste caso, o interesse é sobre o Brasil a partir das perceções externas dos EUA e China. Tal estudo só foi possível por ter acesso a rede de contactos e financiamento recebidos através do programa PRIMO Marie Curie, incluindo instituições na China e no Brasil, onde os trabalhos de campo foram realizados.

Pela pesquisa efetuada até agora, como descreve a relação política contemporânea entre a China e o Brasil?

Esta relação é positivamente percebida. Ambos são geralmente vistos como parceiros. No início, o Brasil assegurava mais expectativas quanto a esta relação. Passados alguns desapontamentos, nomeadamente em questões de ONU e Acordo Iraniano, China-Brasil consolidaram-se em outras plataformas multilaterais, como os BRICS, BASIC (em relação às mudanças climáticas), e G-20. Além disso, ambos beneficiam das relações triangulares com a África e a América Latina. Com as atuais mudanças no cenário global e o aprofundamento das relações com a UE, Portugal pode vir a ser favorecido também com uma relação trilateral com China e Brasil.

Num momento em que os EUA estão a adotar medidas mais protecionistas, qual é então o papel que a China pode vir a ter no cenário político económico a nível global?

Acredito ser um papel influente. É importante, porém, atentar-se de que isso aconteceria positivamente se levar em conta a forma multilateral, liberal e inclusiva. A China, principalmente através dos BRICS, do AIIB e da Nova Rota da Seda, poderá influenciar e aprofundar novas práticas e normas do sistema político económico internacional. Até que ponto isso será possível, precisamos esperar pelos próximos anos.

As políticas de Donald Trump estão a dificultar de alguma maneira as relações entre a China e o resto do mundo? E da China com a União Europeia?

Acredito que não. Por um lado, é claro as intenções de Trump, porém ainda não vemos resultados concretos. Por outro lado, eu vejo uma maior aproximação da China com o resto do mundo, inclusive com a União Europeia. Basta perceber as interações no último encontro do G-20,em Hamburgo. Além da aproximação da China com a UE e dos países dos BRICS, a relação entre China-Alemanha também ganhou um novo ímpeto. Neste primeiro momento, as intenções de Trump só serviram para aproximar os demais entre eles. Referimos neste caso ao clássico provérbio árabe: “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.   

Em várias iniciativas em Portugal relacionadas com cooperação sino-portuguesa, Portugal é apontado frequentemente como uma porta de entrada para a China na Europa e na CPLP. Como podem ambos aproveitar as oportunidades que chegam da China?

Ao aprofundar conhecimentos de ambos parceiros e assim gerar um aumento de confiabilidade, isto facilitaria uma parceria sustentável entre qualquer país. Sendo assim, a cooperação trilateral, intercâmbios de estudantes, turismo e nova Rota da Seda, apontam para um claro desenvolvimento da relação entre Portugal e China. Tais oportunidades permitirão que ambos, China e Portugal possam beneficiar em ambos contextos: Europa e CPLP.

Acredita que Portugal pode ser mesmo uma peça fundamental nesta aproximação?

Não. Com a atual aproximação da China com UE, vemos uma maior oportunidade para com a Alemanha. O estreitamento da relação entre os dois países é acelerado, e comparativamente com Portugal, a Alemanha tem mais vantagens. Já no contexto CPLP, o Brasil ainda tem grande relevância nas relações trilaterais com a China. O seu largo volume de comércio, investimentos e relações políticas com a China são maiores e relevantes no cenário internacional, comparado com a relação Portugal-China.  

No mundo lusófono, dados divulgados pelos Serviços de Alfândega chinesa posicionam o Brasil como o principal parceiro económico da China a larga distância dos restantes países de língua portuguesa. Deste modo, no caso do Brasil, o argumento que Portugal é uma ponte para estes países não vai por água abaixo?

Até certo ponto sim. As relações sino-brasileiras são muito ativas e vão além da CPLP ou Fórum Macau. Geralmente em plataformas das quais Portugal não faz parte ou é percebido com escassa relevância, como na América Latina, BRICS e sobre o tema das mudanças climáticas. Por outro lado, a nova rota direta de avião entre Portugal e China, um exemplo de promoção e mútuo respeito entre estes países, permitiria uma melhor aproximação (territorial) entre China e Brasil, e Portugal beneficiaria como ponte entre esses mundos.

O Fórum Macau está efetivamente a conseguir levar a China até aos CPLP e vice-versa?

Acredito que sim. Enquanto que o Fórum de Macau leva o mundo lusófono a China, a CPLP leva a China ao mundo lusófono. O Fórum Macau intensifica o mercado Chinês, principalmente por parte de Macau, assim como suas relações externas, porém em detrimento de seus parceiros lusófonos. Por outro lado, a CPLP intensifica o mercado e as relações lusófonas em detrimento da China. Assim sendo, tanto o Fórum Macau (para China), como a CPLP (para os países lusófonos), são mecanismo multilaterais que impactam a projeção internacional de seus envolvidos, principalmente China, Angola e Brasil.   

Que oportunidades podem Portugal e Brasil tirar de um maior estreitamento político com a China?

Principalmente em contexto regional e inter-regional. Um maior estreitamento na Europa e com a UE beneficiaria Portugal, pois esta seria uma oportunidade de aumentar a sua reputação dentro da Europa e aumentar sua relação com a China em relação aos demais países europeus. No caso do Brasil, um constante estreitamento político com a China poderia assegurar e até certo ponto fortalecer o seu papel na região. Entretanto, dependerá do Brasil apropriar-se adequadamente deste papel, atendendo, inclusive, as expectativas dos seus vizinhos. Beneficiaria também o fortalecimento do Fórum Macau e da CPLP, intensificando assim a cooperação entre os países lusófonos e China, principalmente agora que Taiwan deixou de ser reconhecido por São Tomé e Príncipe.  

Os relatos que nos chegam constantemente através da comunicação social acerca da triangulação das relações Portugal-China-Brasil são essencialmente de natureza económica e comercial. Que outras áreas podem e devem ser exploradas a nível político nesta relação trilateral?

A aproximação da China e do Brasil na África tem sido rapidamente desenvolvidas, podendo os três beneficiarem desta cooperação em desenvolvimento. Além disso, Portugal poderia continuar a explorar temas como mudanças climáticas e energias renováveis, e beneficiar da reputação brasileira e chinesa nestas áreas. Enquanto que China e Brasil, podem explorar e beneficiar de formas de cooperação no contexto UE e ONU. Isso porque, e relevante lembrar que, o atual representante da missão da UE no Brasil, Embaixador João Gomes Cravinho, é português. Assim como é também, o atual secretário-geral da ONU, António Guterres. Essas oportunidades fortalecem a imagem e o papel de Portugal no cenário político internacional.

Estando já tão imersa nesta temática de estudos académicos sobre a China, existem diferenças entre os portugueses e os brasileiros no que se refere à perceção que têm da China? E no caso dos políticos?

Certamente. Académicos portugueses, muitas vezes, reproduzem a narrativa oficial da China: de um poder responsável. Já os políticos e business geralmente reproduzem a narrativa da União Europeia, que diversas vezes divergem da China, principalmente em questões como desenvolvimento económico e mudanças climáticas. No caso do Brasil, seja business, político ou académico, sempre existirá dois tipos de perceção da China. A China como ameaça e a China como oportunidade. Atualmente a primeira está em destaque, com a notícia de que a China responde 25% da compra das exportações brasileiras em matéria de soja, minério de ferro e petróleo, ultrapassando os demais mercados compradores juntos, EUA, Argentina e Países Baixos, respetivamente. Mesmo assim, a relação China-Brasil é percebida por brasileiros como interdependente e a China como parceiro relevante à relação sul-sul.      

Por final, pode-nos explicar um pouco o que é esse conceito de “China Watchers in the making”?

Recentemente, tem existido um crescente grupo de jovens investigadores sobre China, tanto no Brasil como em Portugal. Isso porque em Portugal, percebe-se um maior incentivo em aprender o idioma e realizar intercâmbios entre os países. Como há também já consolidados centros de investigação relevantes nos estudos asiáticos. Entretanto, no Brasil, só nos últimos anos é que tais centros se consolidaram, gerando um aumento de especialistas em China. Tais iniciativas legitimam as relações bilaterais e trilaterais entre estes países. Para consolidar isso em prática, estes países beneficiariam em ter uma organização como a Young China Watchers. Young China Watchers (YCW) é um grupo dinâmico de jovens especialistas sobre a China. Possui 4000 membros espalhados em 9 escritórios, incluindo os EUA, UE e Ásia. Isto permitiria um melhor intercâmbio e comunicação entre o mundo lusófono e a China, consequentemente promovendo uma melhor compreensão sobre suas expectativas, visões e objetivos, principalmente entre as gerações futuras. Acredito que tais iniciativas já proporcionam um caminho meio andado, portanto “China Watchers in the making”.   

 

Por Cláudio Guerreiro